sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

As memorias de um eis combatente No 16

Certa manhã a patrulha que saiu para norte do Mecíto dá o alerta de haver vestígios de ter havido mechida na linha.
Chamada pela rádio elá vamos nós novamente, creio ter-mos ido a pé, por não ter-mos uma zorra dedicada só para esta estação quando era necessário era requesitada a Caldas Xavier.
Chegados ao local suspeito monta-se a segurança faz-se o reconhecimento da area e é encontrado um fio e algumas baterias que era o necessário para fazer o rebentamento.
Só que pelo que conseguimos apurar os frelimos devem ter tido medo e fugido do local deixando tudo para traz.
Depois de tudo reconhecido, á que começar a trabalhar.
Aqui já tinhamos a certeza de haver qualquer coisa na linha, nunca pensando que podesse ser tão grande.
A primeira operação era descobrir o fio junto a linha e corta-lo, depois do engenho explosivo estar inutelizado e desarmado, há que levanta-lo.
Mando afastar o pessoal da zona e começo a remover pedra por pedra de entre as travessas até que começam a aparecer petardos de T.N.T. de 200 grs cada.
Procuro o que tem o detonador e desarmo-o, a partir daqui tudo foi mais fácil.
Começo a tirar um por um e empilhalos em cima das travessas da linha. Soltos estavam 75 petardos mais uma caixa que depois de aberta continha outros 75. Ao todo foram removidos 30 Kg de T.N.T.
Claro que com estes levantamentos, havia um prémio suplementar para o funcionário que fazia os trabalhos de levantamento, o que fazia sempre jeito um extra.
Algum tempo depois resolvi mudar de vida e voltar para o sul.
E com esta mensagem creio ser e por agora a útima desta série.
Ora bem amigos, camaradas e para todos aqueles que tiveram a paciência de ler estas minhas memorias um grande abraço para todos.
Estas são e continuarão bem acezas na minha memoria,
Como as memorias de um eis combatente.

domingo, 28 de novembro de 2010

As memorias de um eis combatente No 15

Noutra ocasião agora na parte norte do Mecíto.

É feita a abertura da linha o primeiro comboio vindo de Mutarara chega, e passado algum tempo sai do Mecíto, poucos minutos depois ouve-se um rebentamento.
Sem perguntar porquê lá vamos nos na zorra para ver o que se passa.
Uma mina na linha que não tinha sido detectada foi accionada á distância.
Esta acidente foi bastante grave, derivado á velocidade da composição o estrago torna-se muito maior.
(Todas as composições eram propulcionadas por duas locomotivas a vapor uma a seguir á outra na frente do comboio, mesmo assim na frente das locomotivas ainda havia dois vagões abertos carregados de sacos de areia).
Quando chegamos ao local a primeira máquina tinha sido atingida em cheio.
O maquinista da primeira maquina ficou preso, pelo embate da Segunda maquina sem possibilidades de escapa, morrendo ali queimado pelo vapor. O da segunda maquina quando chegamos estava deitado no capim com um pé preso so pela pele.

Estes dois maquinistas tinha chegado de Portugal uma semana antes.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

As memorias de um eis combatente No 14

Certa noite depois dos comboios terem passado (todos os dias dois para norte e dois para sul) depois das patrulhas terem regreçado ao aquartelamento depois da linha ter sido encerrada para qualquer actividade, começaram a ouvir-se rebentamentos para sul não muito longe do Mecito o que durou não muito tempo.

Demanhã no dia seguinte logo pela fresquinha o pessoal pôe-se a caminho para ver o que se tinha passado.
A cerca de dois quilometros e ainda uma certa distância do local começou-se a vislumbrar os estragos na linha.
Conforme nos fomos aproximando vimos que o carril esquerda estava partido que tambem havia 2 minas anti-carro que não tinham rebentado.
Na chegada ao local monta-se um despositivo de segurança dão-se indicações ao pessoal da defesa civil e tambem ao pessoal do exercito que nos tinha acompanhado para fazer a segurança e para num raio de acção de 75 a 100 metros fazer um completo reconhecimento de todo o terreno para a possibilidade de provaveis minas anti-pessoais.
Enquanto eu no local do rebentamento e pela esperiência que tinha de minas e armadilhas, ver a melhor maneira de remover as minas sem possiveis rebentamentos.
Nunca tinha acontecido ainda, mas para uma possivel contra armadilha (contra armadilha será uma armadilha por debaixo de uma mina a explodir quando se remove o que esta por cima) e jogando pelo seguro depois de ter removido os detonadores sem as ter movido.
Com uma corda amarrada a uma das mãozeiras que serviam para o transporte e a uma distância mais ou menos rasoavel, as minas foram removidas uma a uma sem qualquer sobressalto. Nada tambem para reportar nas redondesas.
Depois de tudo limpo na area resolvemos fazer o reconhecimento mais para sul ainda, na possiblidade de mais problemas mas só tinha sido ali.
Neste reconhecimento e andando sobre as traveças da linha e como num caso destes era eu sempre o da frente, dando instruções a todo o pessoal para não pisar for a da travessa. Depois de todo o pessoal da defesa civil e do exercito ter passado o último da fila, um soldado do exército para azar dele, pôs um pé no sítio errado, fora das travessas (mesmo depois de eu ter avisado) e fez o acionamento de uma mina anti-pessoal, ficando sem um pé. Foi metido numa zorra e evacuado.
Mais umas semanas passaram sem contratempos, até que novos rebentamentos mais a sul ainda.
Nova saida pela manhã bem cedinho aqui o estrago foi um pouco maior. Com a linha rebentada numa estenção de pelo menos trinta metros.
As mesmaas instruções de reconhecimento e segurança e á que começar a trabalhar, remover três minas anti-carro e depois tenho a noticia de muita actividade na area. Neste local e sempre com a ajuda de uma faca de mato levantei nesta manhã as três minas anti-carro e mais treze anti-pessoais que tinham sido encontradas pelo pessoal.
Depois dos detonadores terem sido removidos qualquer mina é totalmente inofenciva, era a primeira coisa que eu fazia era torna-las inofencivas.
Claro que depois a linha tem que ser reparada. Aqui entrava então o pessoal ferroviário com a proteção do Exercito.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

As memorias de um eis combatente No 13

Depois de três meses e mais uns dias como civil, depois de uma tentative de emprego em Lourenço Marques, que não era muito fácil por não haver oferta.
Por conhecimento do meu irmão, lá arranjei emprego numa fábrica de cameras frigorificas como serralheiro.
Por pouco tempo e por ter havido uma chatice com o patrão (talvez por ele ser um pouco fascista).
Possivelmente por eu ter saido á pouco tempo da marinha, ou por eu estar ainda muito quente, por continuar a ter a guerra ainda nas veias e não aceitar as condições e os tratos de que estava e ser alvo pelo dono da fabrica, para não haver mais problemas resolvi sair, antes de acontecer algo de maior.
Estacionei em Manjacaze, uma vila no interior e no distrito do Xai-Xai, á espera que algo acontecesse.
E aconteceu, até que um dia lá na cantina (na loja), lá aparceu alguém.
Esse alguém que pertência á Policia do porto de Lourenço Marques.
Depois de algum tempo de conversa, ficou combinado para me encontrar com ele no comando da policia do porto, no escritório dele.
Lá apareci, depois de alguma conversa e como ele já tinha mais ou menos todos os papeis preparados foi só assinar.
Apartir dali fiquei a pertencer a esta unidade. A Defesa Civil. Neste caso eu diria mercenário.
Com o destino de mais tarde ser transferido para a defesa da linha de Téte, entre Mutarara e Moatize.
Por estar em aberto o curso para as comonicações e por estarem a ser colocados rádios em todas as estações da linha.
Como já tinha algum conhecimento do ramo, no que tinha aprendido enquanto na Marinha, entrei no curso imediatamente, juntando-me aos que tinham vindo lá de cima para frequenta-lo também.
Creio que três semanas depois e depois do curso ter acabado lá fomos todos até Caldas Xavier, onde era a nossa base principal.
O quartel general era em Lourenço Marques.
Selecionados e como os rádios ainda não estavam operacionais, fomos destribuidos pela linha onde me calhou ficar algum tempo em =X=(não lembro o nome), para fazer proteção á primeira destruição que tinha sido feita pela frelimo nesta linha. A ponte situada ao quilometro 212 da linha.
Dois guardas de cada vez e mais alguns auxiliares uma pequena barraca e ali ficava-mos entregues ao tempo durante uma semana até á vinda dos próximos dois guardas, para a rendição.
Quando os rádios ficaram operacionais fui colocado em Moatize com dois outros operadores.
Daqui nova paragem Mecito, uma paragem no meio de nada onde a unica actividade era a passagem dos comboios.
Tambem estava ali estacionada uma companhia do exército.
Esta zona estava baastante quente, geralmente todas as semanas havia problemas na área, rebentamentos na linha ou ataques ás patrulhas, patrulhas essas que saiam da base ao longo da linha uma para norte outra para sul tentando descobrir alguma actividade noturna, quando os ultimos chegassem ao seu posto era feita a chamada pela rádio a comunicar que naquela area a linha estava limpa.
De noite por vezes rebentamentos que eram feitos, por de dia haver as patrulhas que estavam destribuidas ao longo da linha.
E aqui começa ou entra a experiencia que tinha do que aprendi na marinha.
Deste ponto avante vou mencionar os quarto pontos mais importantes em que estive envolvido no levantamento de minas e armadilhas (materias esplosivos), tambem uma embuscada a uma zorra de noite em que me encontrava junto com outros (uma zorra é como um carro blindado que anda na linha).
Para proceder ao abastecimentos de comida e material de guerra em Caldas Xavier, saimos depois de almoço do Mecito, a base onde estavamos estacionados. Depois do abastecimento e no regreço já de noite a bastantes quilometros já de Caldas Xavier e depois de ter passado =XX=(não lembro o nome), fomos atacados com lança roquetes o que apanhou a zorra bem em cheio no lado direito, perfurando a blindagem de uma chapa de pelo menos meia polegada, nesta zorra a torre em que deveria ser montada uma metrelhadora, tinha sido removida, ficando um buraco em cima de pelo menos de secenta centimetros de diametro.
Os quatro guardas que viajavamos e mais alguns auxiliaries, nós os quarto guardas iamos sentados em cima da zorra com uma perna dentro outra de fora.
No momento do primeiro rebetamento o guarda que ia na minha frente e sem pensar e por falta de experiência mandou-se de cabeça para dentro, nos que ficamos em cima ainda respondemos ao tiroteio voltando-nos para traz, a zorra continuava a andar aqui já sem control.
O guarda quando bateu em baixo de cabeça, partiu o pescoço e ao mesmo momento foi tambem atingido por um estilhaço bastante grande que entrou pelo pescoço e ficou alojado muito perto do coração.
Tentando um SOS e como era eu o operador de rádio, mas como já estava ligado há muitas horas a bateria foi a vida, muita sorte para nós ainda ouve uma estação que nos ouviu e deu o alerta. Por ser de noite e não havendo outras possibilidades o guarda foi evacuado por outra zorra muito mais rápida que tinha vindo de Caldas Xavier para nos ajudar e levar o ferido para Moatize onde se encontrava já uma ambulancia á espera. A viagem levou pelo menos duas horas ou um pouco mais, para depois ser levado para o hospital de Téte onde chegou já sem vida, o seu nome, António José da Silva Lobo.
Depois de tudo isto voltamos a Caldas Xavier para reportes e proformas, só chegamos de volta ao Mecito, tarde no dia seguinte.

domingo, 24 de outubro de 2010

Foto da mesa no regresso

As memorias de um eis combatente No 12

Novos ambientes, novas paragens, agora do outro lado e para o interior.

Distrito de Téte. Quente. Província bem quente em temperatura.
De avião até Téte.
De coluna de Téte até ao Magué Novo, ficando ali por dois dias.
Na segunda noite, dois ou três de nós, mais um ou dois do Exército e num LandRover resolvemos ir beber uns copos a Mocumbura na fronteira da Rhodesia que ficava a cerca de cinquenta quilometros.
Para nossa sorte, na volta e ao entrar no aquartelamento, a gasolina acabou, teria sido bem complicado se tivesse acabado longe.
Nova deslocação, mais uns bons qilometros, por uma picada em muito mau estado, até ao Magué Velho, aqui junto ao rio Zambeze.
Novo acampamento a ser construido.
Patrulhamentos pelo rio, em Zebro III. Patrulhas de reconhecimento pela zona, nada de importante a não ser o rebentamento de canoas á granada.
Um dia um camião mercedez com saida do Magué Velho com destino a Téte.
O António Rafael Garcez de Sena Freitas Mar FZE 728/65 (mais conhecido pelo Arraza) era o condutor. Mais alguns Fuzileiros em cima na carroçaria para apanhar ar fresco.
Na picada e já bastante longe do Magué Novo, há uma embuscada.
Um elemento dos terroristas salta para a picada com um lança roquetes, á o disparo e o roquete atinge a roda detraz do camião.
Da direita e na zona de morte, (uso este termo por ser a área em que a viatura está no centro da embuscada) há uma serie de disparos, havendo a imediata resposta do pessoal do camião. O parabrisas tambem é atingido ficando todo estilhaçado.
Sem ver nada para a frente. Com os punhos o Arraza empurra-o para a frente.
Com uma roda detraz bloqueada consegue tirar o camião daquela zona.
Creio terem sido seis feridos ligeiros que tivemos nesta emboscada.
Para o Magué Velho e em Zebro III são feitos os abastecimentos.
Carregados da Chicoa e pelo rio acima com passagem pelos rápidos o que não era muito facíl pela velocidade da água.
Com a construção de Cabora Bassa toda esta área desapareçeu.
Geralmente um Fuzileiro sózinho por bote para fazer o transporte do carregamento de mantimentos que eram levados para o nosso acampamento, não mais de dois botes de cada vez.
Tambem fiz algumas destas viagens sózinho.
Algumas noites de patrulha pelo rio e junto a margem, com um holofoto para ver o que se passava na margem, algumas vezes era imprecionante ver tantos reflexos de olhos de jacarez, parecia uma pequena cidade.
Rio Zambeze tambem muito povoado por hipopotamos.
Por outras vezes e no mato, tentando caçar para comer algo diferente.
Lá se passaram alguns meses.
Do Magué Velho, para mais perto de Téte, para o Tchirose.
Bem lá em cima no alto do morro a uns bons cinquenta metros se não mais acima do nivel do rio.
A divisão do pessoal entre o Tchirose e Téte. Estivemos mais ou menos por um mês, ou pouco mais.
E aqui meus amigos, com mais alguns dias em Téte e depois de vinte e sete mêses no norte de Moçambique, terminou a sua comissão o Destecamento de Fuzileiros Especiais No 9 entre 1969 e 1971.
Não me lembro mas creio termos voado até á Beira para o embarque no navio da Marinha Mercante, o Princepe Perfeito.
Para mim só por um dia e uma noite e por preferência para ficar em Moçambique.
Finalmente e para mim o desembarque em Lourenço Marques.
Com a despedida de todos os camaradas e amigos que tinhamos combatido juntos pelo norte.
Ficando agregado ao Comando Naval por mais três meses por falta do papel de passagem á disponibelidade, que devia ter sido deixado pelo destacamento.
Aqui passo á reserva da Marinha no dia 2/11/1971.

domingo, 17 de outubro de 2010

As memorias de um eis combatente No 11

Do Niassa até Porto Amélia, Cabo Delgado.

Um aquartelamento bom, com umas instalações mais ou menos, um ambiente da vida civil, entrada e saida sem farda, para o caso em Porto Amélia um pré fabricado em muito bom estado. Não tivemos muito tempo para nos gozar dele, em três meses que se esteve em Cabo Delgado.
Fizemos uma operação á costa, na área de Mocímbua da Praia, terreno muito pantanoso e bem difícil.
Desembarcados e reembarcados por uma Fragata.
De volta á base, mais uns dias de praia, para mim, numa das melhores praias de Moçambique, praia parece que nunca mais acaba.
Dias depois, numa manhã.
Nova convocatória alguns camiões Mercedes na parada, destribuição do pessoal pelos camiões e lá vamos nós até Mueda.
Uma estrada bem complicada para colunas automoveis, minas, embuscadas, uma zona muito flagelada pela frelimo, todo aquele que passasse para norte do crusamento da viúva. Digamos na zona mais próxima a Mueda onde se situava a tão celebre curva da morte, onde tantos soldados do exercito perderam a vida.
Não sei se por sorte, vontade própria, vou novamente trazer de volta a “tropa macaca” como eramos conhecidos pela frelimo. Passamos toda esta estrada sem um tiro ou um rebentamento.
Chegados a Mueda, á que levanter um acampamento com tendas de campanha.
Algum descanso.
Um ou dois dias depois, uma operação a norte de Mueda, desta vez fiquei em casa. (No acampamento).
Sei que ouve encontro com a frelimo, que ouve tiros de parte a parte.
O guia que tinha pertêncido aos Paraquedistas e digo pertencido porque ouve um pequeno precalso para ele.
Um dos membros do destacamento que se apercebeu e no encontro com a Frelimo, o guia tentou fugir. O Fuzileiro/Eletrecista (Manuel Antonio Galito de Almeida, Mar Fze 266/68) não pensou duas vezes e com uma rajada de G3 o guia foi ao chão, não morreu desta, para sorte dele.
Teve uma operação cirurgica de emergencia em Mueda para reparar os intestinos que tinham ficado muito danificados.
Duas semanas neste acampamento. De novo de volta, nova coluna de volta a Porto Amélia, por poucos dias.
Nova coluna de mercedes até ao lago N’gurí.
Passando novamente pelo cruzamento da viúva e em vêz de seguir em frente a caminho de Mueda, viramos á direita para Montepuez,( base dos Comandos ) mas só de passagem.
Com homens á frente a picar a picada para o caso de poder haver minas.
Foi uma progressão de caracol.
Primeiro a segurança do pessoal e viaturas.
Depois de Montepuez, passagem por e sobre uma ponte que só tinha passadeiras para as rodas dos camiões, mas lá fômos até ao lago que já não estava muito longe.
Formar acampamento, montagem de barracas, organizar e começar o reconhecimento.
Canoas apreendidas e empilhadas junto ao nosso acampamento.
No dia a seguir a termos tomado a base do lago N’gurí, o destacamento saiu para dar uma volta e ver se encontrava mais frelimos. Na base ficaram 3 ou 4 Fuzos e o pelotão do exército. Uma hora + - depois de terem saido começámos a ser flagelados por morteiros e algumas rajadas. Os Fuzos que tinham ficado estavam todos com desinteria e como estávamos sempre com necessidade de aliviar a tripa fomos para o buraco onde estava o morteiro porque ficava mais perto do mato que circundava a base. Enquanto a malta do exército andava sem saber o que fazer reagimos à morteirada aos disparos deles e passados uns minutos (gastámos uma caixa de granadas) deixaram de se ouvir os tiros deles. Quando o destacamento voltou eu já tinha comunicado com o Carlos a explicar o sucedido e o DFE circundou a base para os apanhar pelas costas mas a unica coisa que encontrou foram vestigios de sangue no local e continuaram a nomadização.
Incurções ao mato de dois e três dias, mais algumas escaramuças, nada de maior.
Em conjunto com o Exercito nas saídas para a estrada.
Numa destas saídas há uma Berliett que na picada rebenta uma mina e um Furriel do Exercito ferido, ouve também um ou dois Fuzileiros com umas escoriações, mas nada de grave.
Estivemos nesta área mais ou menos um mês.
Depois disto o regreço a Porto Amélia, novamente por pouco tempo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

As memorias de um eis combatente No 10

Mais algumas operaões, mais umas escaramuças, tiros de cá, tiros de lá.

Não tão bém como a guerra do nosso saudoso Raul Solnado.
Aqui a guerra era mesmo a valer.
Neste episódio vou tentar relatar mais em detalhe o que já foi escrito por camaradas meus. Que vivemos em conjunto esta mesma guerra, pertencentes á mesma unidade.
Para esta operação fomos convocados 60 homens, incluindo, 2 oficiais, 3 sargentos e 55 praças.
Começando pelo comandante, que numa operação desta envergadura nunca ficava em casa.
Homem destemido, qual a confiança que ele tinha no seu homens, sempre na frente. A única arma que ele geralmente carregava em operações era uma pistola Walter.
Agora o começo da narrativa da tão celebre operação "Montelima". 26/2/70
O ataque á base de Vila Cabral. A base principal. A base de comando da Frelimo na província do Niassa.
Caía a tarde e já todos sabiamos quem ia sair nessa noite.
Detribuição de rações de combate, tudo pronto para o embarque nas lanchas L.Fs.
Saimos já de noite, rumo ao sul, um pouco mais de meio caminho entre o Cobué e Metangula.
Desembarque em Zebro III, dois, três ou quatro, não me lembro.
De noite leva sempre mais tempo este genero de desembarque. Por motivo de segurança as lanchas ficavam longe da margem.
Desta vez saíamos com um novo guia.
Este tinha-se entregue ao Exercito dias antes, no norte da província junto a fronteira da Tanzania.
Todos em terra depois do desembarque. Vamos andar, temos muitos quilometros pela frente.
Andamos toda essa noite, todo o dia seguinte, parando só por uns minutos para comer.
Ao cair da segunda noite parou-se para descançar um pouco, não muito para não arrefecer.
Nova caminhada.
Cerca da 01:30 da manhã desce-se uma encosta, entramos dentro de um rio, com água quase pela cintura.
Passa palavra, fazer o menos barulho possível.
Cerca de meia hora a caminhar na água até que veio ordem para parar.
Um pouco mais á frente havia uma machamba (uma horta). Aqui eram cultivados os alimentos para os Frelimos na área.
Os cultivadores e os guardas deles que aqui se encontravam, foram todos presos, sem uma palavra ou algum som.
Até aqui tudo bem.
Para sair do rio era utilizada uma arvore velha e seca que estava encostada na vertente do rio como que servindo de escada.
Seguindo um trilho que era usado por eles, através dos montes, lá fomos progredindo pelo mato.
Mais á frente havendo conhecimento pelo guia de que havia um sentinela, desviamo-nos do trilho e aqui perdemos muito tempo para contornar este obstáculo, tempo esse que nos fez muita falta mais tarde, mas lá fomos andando.
Mais adiante algum tempo depois começavam a aparecer os primeiros ráios da aurora.
“O amanhecer”.
Já próximo do alvo é formado um pequeno acampamento com o pessoal capturado, com alguns nossos de guarda.
Teria tudo sido tão diferente e tão mais facíl se chegaramos aqui meia hora mais cedo, esse o tempo que perdemos a contornar o sentinela.
Palavra para avançar pela direita do trilho que tinhamos seguido. No lado esquerdo estava armadilhado.
Não há tempo para lamentações, neste ponto impossível voltar para traz. Há que avançar.
Eram 05:35 ouviram-se vozes no mato, já se viam algumas palhotas, cheirava a fumo. Quero dizer, os cozinheiros estavam já a pé para fazer a comida para os Frelimos.
Com o pessoal já todo alinhado ao longo do arvoredo a alguns metros das palhotas, muita tenção, ouvesse uma primeira rajada um som bem conhecido por nós, por ser da nossa MG42 uma metrelhdora ligeira.
Logo a seguir tiros de ambos os lados, mas que coisa mais infernal.
Há um Frelimo por detraz de uma arvore que faz uma rajada de AK47. Dois Fuzileiros que caem, um morto, meu saudoso e pessoal amigo (José Serpa da Rosa Mar FZE 1356/67) que tinha vindo até nós oriundo dos Açores, e um frido. Neste momento não tenho a certeza, não vou mencionar nomes, espero que me ajudem.
Por informações chegadas até nós depois desta operação, estavamos muito aquém de comparar o nosso numero com o numero do inimigo, eramos, bem menos.
Por aquilo que nos foi comunicado por frelimos que se entregaram ao Exercito depois desta operação, tinham morrido 58 neste ataque.
Não nos foi dito qual o numero de feridos que eles tiveram. Foi capturado enorme quantidade de documentos, fardamento e equipamento.
Foi abatido o secretario da base central Dustão Paulo Candeia, ferido o chefe de material, Feridos não identeficados, capturado Henrique Samuel Catamaca perito minas e armadilhas.
Há que destruir o mais possível no menor tempo e sair daquí muito depressinha. Tinhamos que carregar com o nosso camarada morto, o ferido com uma bala alojada nas costas lá se foi aguentando que nem um grande HERÓI.
Num caso destes é bem mais difícil caminhar, revezando os carregadores da maca de dez em dez ou de quinze em quinze minutos e calhava a todos, por ser muito dificil atravez do mato.
Mais ou menos uma hora depois faz-se uma paragem para descansar e pedir a evaquação. O Rádio Telegrafista Mar C FZE Carlos Guilherme dos Santos, entra em contacto com a base. E são despachados um helicoptro e um avião de proteção T6.
Pelas 08:00 começamos a ouvir o avião bem longe ainda. O Telegrafista tenta entrar em contacto uma, duas, três vezes mas sem sucesso. Cada vez que dava as coordenadas aos voadores perecia mais se afastarem. O comandante chega á conclusão de haver outro rádio na área a chamar por eles. Muito provavelmente os frelimos.
Está tudo calmo.
Para tentar mais rede o Telegrafista sobe a uma pequena árvore e tenta estender uma antenna para melhor captação de rádio, há uma rajada de AK47, ele salta para o chão com folhas da ávore a cair-lhe em cima.
Voltamos a andar sempre, com tiros disparados á nossa volta e não muito longe, lá vamos tambem dandos uns tiros de vez enquanto para mostrar resistência da nossa parte.
Sempre a andar.
Cerca das 16:00 finalmente os voadores vêem na nossa direcção, aqui tudo se modifica para nosso bem, neste caso para bem melhor.
Feita a evacuação no planalto em que nos encontravamos, não sem de um arvoredo próximo ainda haver uma rajada ao heli.
Soubemos que na chegada a Metangula o ferido, pelo seu pé saiu do heli, entra num jeep que o leva até a enfermaria da Marinha, neste momento e quando se dirige para entrar na enfermaria pelo seu pé, aqui sim acabaram-se-lhe as forças e vai para o chão, depois daqui nada mais soubemos dele, não voltou para nós, soubemos ter sido evacuado para Portugal.
Nós agora estamos com mais mobilidade, mais poder de acção e com mais liberdade e rapidez.
Saindo do planalto o mais rápido possível pela encosta descendo para a planice, com muitos tiros nas nossas costas, não sem uma vez por outra responder-mos aos disparos, há que andar o máximo possível.
Já bem de noite finalmente o stop, já sem sentir não só as pernas mas tambem todo o resto do corpo.
Algumas horas de son depois, ao amanhecer, lá vamos nós com destino a Nova Coimbra,
não sem passar pelo Lunho um acampameento de que todos devem ter ouvido falar e que ficou famoso, uma eis base do Exercito abandonada por muito ter sido flagelada pela Frelimo, não ouve outra alternativa senão abandona-la.
Mais uns bons quilometros até á entrada em Nova Coimbra muito tristes. Com abraços dos residentes do Exercito pelo feito de que nós tinhamos sido protagonistas.
Com o armamento capturado, 2 AK47, 1 espingarda simonov, 1 carabina steyer. Não só na machamba mas tambem na base e todos aquqeles elementos que não pertenciam aos Fuzileiros e que nos acompanhavam, 3 homens, 8 mulheres e 6 criancas.
Aqui posso salientar que toda esta operação foi começada, efectuada e concluida só pelo Destacamento de Fuzileiros Especiais No 9, sem qualquer apoio de outras forças, quer do Exercito ou da força Aerea.
De Metangula fomos até ao Cobué para um bom descanso, poderemos dizer que esta operação foi um êxito, mas teria sido um êsito muito maior ainda se todo o pessoal tivesse regressado.
Foi uma das mais duras de todas as operações por nós efectuadas nos vinte e sete meses que estivemos no norte de Moçambique. Daqui com um bom descanso, creio de duas semanas, e prontos para novas aventuras.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

As memorias de um eis combatente Nº 9

De volta ao Cobué e depois de mais algumas aventuras no regresso, carregado com duas violas acústicas compradas em Lourenço Marques, já estavam destinadas mesmo antes do início das ferias, uma que seria para mim e a outra seria para o Luis Filipe Barros e Silva.

Depois de muitas tentativas, depois de alguns acordes, pela minha parte era quase como por uma galinha a tocar musica, mesmo assim a ainda me acompanhou durante alguns anos mas era só como uma boa companhia para mim.
O Luis tinha mais paciência que eu e enquanto na tropa lá conseguia tocar alguma coisa, não sei se no futuro conseguio mais, ainda não falamos nisso.
Agora vos vou contar as lembranças de uma das operações em que estive envolvido, (assim como se lembraram todos os outros envolvidos) minha equipe e devido por pertencer a carregar com a metrelhadora que geralmente era carregada pelo (Albino) por outras palavras, o João José Garrido Rossa, era o que tinha mais cabedal na equipa e iamos na frente.
Depois de uma noite a andar e com pouco descanso.
Logo de manhã e pela fresquinha, isto no planalto a norte de Nova Coimbra, junto a um trilho bastante batido, onde se conseguia ver que era bastante frequentado por passantes, o Comandante dá ordem de paragem, colocar o pessoal ao longo do trilho, camuflar o mais possivel.
Esperar.!!!!
Eu lembro logo que caí no chão adormeci.
Sei que fui acordado por um dos meus camaradas não muito tempo depois.
Dois fulanos que se aproximavam.
Ordem para ninguem disparar, deixar chegar até ao fim da nossa linha de embuscada e aqui sim o primeiro tiro a ser disparado, seria pelo Cabo FZE Sousa que estava junto com a minha equipe mesmo no fim da linha, isto para o caso de haver outros fulanos mais atrazados.
Desta não aconteceu haver mais, eram só estes dois.
Ouve o primeiro disparo, depois uma rajada de metrelhadora os dois fulanos começam a correr para o arvoredo um deles não deu para correr muito, caiu a não muitos metros do sítio onde foi atingido, sem nenhuma esperança de vida.
O Comandante dá ordem ao ordenança do terceiro Oficial para acabar com ele.
Alguns insultos ditos pelo futuro defunto em pleno Portugues. Uma G3 apontada á cabeça um disparo e passou mesmo a defunto, soube-se pelo guia este ser o 2nd comandante das bases do Niassa.
Entretanto o outro que era oficial da tropa da Tanzania e depois de uma correria louca, mais tiros de G3, um de morteiro ainda conseguio passar ate ao fim do planalto e mandar-se pela ribanceira. Soube-mos depois que também tinha morrido.
Mais nova embuscada agora na estrema do planalto.
Não muito tempo passado e vindo do sentido oposto e provavelmente vindo da base que neste caso, estaria próxima, aparece um grupo para fiscalizar o que tinha acontecido. Neste estavamos um pouco longe.
Mesmo assim ainda ouve alguns disparos mais uma correria atrás deles.
Estes tiveram mais sorte, conseguiram fugir.
Daqui foi só sair do planalto, descer pela encosta não sem ouvir alguns disparos do sitio onde tinhamos estado antes.
Começa a cair a noite e é mais uma noite a dormir no chão, bem não era assim tão mau para quem gostasse de fazer campismo, não só quando se está cansado, dorme-se em qualquer lado.
Na manhã seguinte, rumo a Nova Coimbra, onde chegamos ainda cedo.
Tivemos uma optima recepção pela tropa estacionada ali. Eles tinham ouvido a festa do dia anterior.
Nesta operação conseguimos levar connosco algumas armas que tinhamos capturado. 2 pistolas e uma AK47.
De Nova Coimbra até Metangula não era muito longe mas depois de todo este tempo no mato e como a operação já tinha terminado, fomos em camiões, creio que da marinha que tinham ido de Metangula.
Em Metangula embarque nas LF’s e mais duas horas e meia deitados no chão e a dormir claro, até ao Cobué, para mais alguns dias de descanso e até a próxima saída em operação.

Cancioneiro do Niassa Velhas picadas esburacadas Capim cerrado E o calor, sinto o suor Corpo cansado Moscas mosquitos Bichos esquisitos Ai é...