quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Francisco Bogalho

O texto em baixo foi encontrado na Net no "África e a Diáspora Negra
Blog do grupo Africa@grupos.com.br" publico-o com a esperança que o Francisco Bogalho dê sinal de vida. Sei que este texto saiu do Correio de Manhã mas o link já não está activo.

A Minha Guerra - Francisco Bogalho, Reg. de Fuzileiros, Moçambique 1967/73

A Minha Guerra - Francisco Bogalho, Reg. de Fuzileiros, Moçambique 1967/73
"Cumpri três missões em Moçambique"
Ainda não tinha feito os 17 anos alistei-me nos Fuzileiros. Fui aceite. Combati no Norte de Moçambique de 1967 a 1973. A nossa tropa de elite estava bem preparada
Assentei praça voluntariamente na Armada no dia 12 de Março de 1965: queria ser fuzileiro – e fui admitido. Ia fazer 17 anos. Após a recruta, iniciei o curso na Escola de Vale do Zebro. Terminei a especialidade de fuzileiro especial em Janeiro de 1967. A minha primeira missão decorreu ainda na Metrópole: eu e mais uns tantos camaradas fomos para Braga, na guarda de honra ao Presidente da República, almirante Américo Tomaz, e ao Presidente do Conselho, Oliveira Salazar.
Em 4 de Fevereiro de 1967 embarquei no navio Niassa rumo a Moçambique. Segui integrado no Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 9, comandado pelo primeiro-tenente António Luís Santarém da Cruz. Eu era conhecido como o ‘Corvo’. O destacamento foi enviado para a zona de Niassa. Passados poucos dias, fizemos a primeira operação. Fomos transportados na lancha de desembarque ‘Saturno’. Passei então pela primeira prova de fogo. Correu tudo bem. Houve muita rajada de metralhadora, de parte a parte, e conseguimos cumprir o objectivo. Não tivemos mortos nem feridos. Estávamos muito bem preparados.
O meu destacamento também participou na ‘Operação Serpente’ – que teve como objectivo atacar e destruir um acampamento de guerrilheiros. Partimos de um aquartelamento em Mocimboa da Praia, no Norte de Moçambique. Entregaram-nos um nativo que tinha prometido guiar-nos até ao local do acampamento. Mal sabíamos nós que o homem, afinal, estava ali com outras intenções. O que ele queria era conduzir-nos para uma emboscada de onde nenhum de nós sairia com vida.
Saímos de madrugada com o tal guia. O destacamento era constituído por 80 homens. Chovia que Deus mandava. Andámos uns bons quilómetros – e o guia não nos dizia nada de concreto. O nosso comandante, primeiro--tenente Cruz, já começava a desconfiar – até que entrámos numa zona de canavial e o guia apontou para um local. Vimos uma luz que tremelicava ao longe com o vento e a chuva. Estávamos todos encharcados, mas determinados e prontos para o ataque ao acampamento inimigo.
O nosso comandante sacou da bússola e da carta e percebeu que o ponto indicado pelo guia era um local por onde já tínhamos passado. Ficou com a certeza absoluta de que o guia estava ali para nos enganar. Se tivéssemos avançado para onde ele nos indicou, cairíamos numa emboscada mortal. Voltámos para trás.
Se não fosse a perspicácia do comandante, muitos nós teriam morrido. O primeiro-tenente Cruz, um combatente experiente, evitou uma tragédia.
Quando chegámos ao quartel de Mocimboa da Praia, o comandante encarregou o ‘Coruja’ de dar um tratamento ao guia. O ‘Coruja’ deu-lhe um arraial de pancadaria.
Na zona de Cabo Delgado corria um rio de água salobra entre Nova Coimbra e Porto Amélia. Montámos aí uma emboscada, porque recebemos a informação de que um grupo de guerrilheiros iria passar nesse dia. Ainda me recordo do nome de código da operação – era a ‘Operação Falcão’. Tomámos posição seriam umas cinco horas da manhã. O inimigo já utilizava uma táctica diferente quando progredia na mata: mandavam negros civis à frente, para nos enganar, e eles caminhavam atrás. Matávamos os da frente e os guerrilheiros fugiam. A solução era deixar passar os da frente. Pelas cinco da tarde, estava eu a abrir uma lata de sardinha para comer, vejo um grupo aproximar-se. Eram eles. Deixámos passar os quatro ou cinco que vinham à frente e preparámo-nos para concentrar o fogo sobre o grupo de uns 12 ou 15 guerrilheiros que seguia mais atrasado. Fiz sinal aos outros. Coloquei a G3 na posição de rajada. Mas, ao mudar a patilha, fiz um pequeno barulho – o suficiente para um dos guerrilheiros ouvir o estalinho. Eles andavam na mata com muito cuidado e com todos os sentidos em alerta. Faço imediatamente uma rajada: um dos inimigos caiu atingido – e os outros responderam ao ataque. Estalou ali violento tiroteio. A nossa táctica era nunca ficar por muito tempo no mesmo sítio donde lançávamos o ataque: fazíamos fogo, desaparecíamos dali, tomávamos outra posição. Quando acabámos de fazer este movimento, morteiros disparados pelo inimigo acabaram por cair exactamente no local onde tínhamos estado. Éramos uma tropa de elite. Matámos uns tantos e apanhámos uma quantidade de armas. Ainda andámos por ali mais um dia e acabámos por regressar ao aquartelamento.
O meu destacamento esteve ainda numa zona muito perigosa, nas margens do Zambeze. Patrulhávamos o rio. Atirávamos sobre tudo o que se mexia. Deixávamos os corpos dos guerrilheiros armadilhados com granadas. Se os outros tentassem, por qualquer razão, remover o cadáver ficavam lá desfeitos pelo efeito das explosões.
Eu e os meus camaradas fizemos muitas operações. Mas a mais marcante foi, sem dúvida, a última da minha primeira comissão – a ‘Operação Chave de Ouro’. No dia 14 de Fevereiro de 1969, o destacamento saiu para patrulhar a zona do Monte de Oliveiras. Andámos vários dias na mata. Não vimos ninguém. Até que os camiões Berliet do Exército nos foram buscar num local que já estava determinado. No momento em que estávamos a embarcar nas viaturas, aconteceu uma coisa que me havia de marcar para todo a vida. O sargento Póvoas, de quem eu era grande amigo, tombou para sempre: ficou com a cabeça desfeita. Morreu ainda outro fuzileiro – e mais um furriel e um soldado do Exército. Nós, os fuzileiros, somos fortes e não desanimamos. Mas o que aconteceu neste dia deixou-nos um bocado em baixo. Durante os dias que andámos na mata não avistámos guerrilheiros e logo uma coisa destas tinha que acontecer já no fim da operação... Tantos anos depois, ainda me emociono quando recordo este triste episódio. Eles estavam muito bem posicionados quando nos atacaram. Ocuparam uma elevação alta de terreno e atacaram de cima para baixo.
Terminei a primeira comissão em 1969. Regressei à Metrópole. Mas meti os papéis para mais uma comissão. Ainda em 69, embarquei de novo para Moçambique. Fui colocado de novo no Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 9 – que já tinha outro comandante, o primeiro-tenente Baptista Coelho. Fomos para as mesmas regiões – Niassa, Cabo Delgado, Tete.
Na zona do Niassa fizemos uma operação de altíssimo risco. Um negro ofereceu-se para nos guiar até um acampamento dos guerrilheiros. Lá fomos. Andámos um dia inteiro em seco e uma noite inteira com água pelo peito. Ao amanhecer, pelas quatro ou cinco da manhã, estávamos perto da base do inimigo. Cercámos o acampamento – e atacámos. Foi um autêntico arraial de fogo. Destruímos aquilo tudo. Causámos muitas baixas aos guerrilheiros, capturámos alguns e apanhámos muito armamento. Infelizmente, sofremos um morto e um ferido.
Fiz ainda mais uma comissão em Moçambique, a terceira, entre 1971 e 1973. As coisas correram mais calmas. Quando passei à vida civil, acabei por continuar em Moçambique. Só regressei em 1977 – e só vim porque fui obrigado. Nunca mais lá fui. Mas não quero morrer sem lá voltar. Tenho saudades daquela terra.
'NÃO QUERO MORRER SEM VOLTAR OUTRA VEZ ÀQUELA TERRA"
Se não fosse a guerra civil e a instabilidade que estalaram depois da independência, Francisco Bogalho, muito provavelmente, ainda estaria com a família em Moçambique. 'Ainda aguentei até 1977, mas ameaçavam-me que matavam a minha mulher e o nosso filho. Eu, por mim, não tinha medo. Tinha uma G3 em casa. Mas temia pelos meus. Voltei com eles para Portugal'. Francisco casara-se em Moçambique e por lá queria continuar. 'Aquilo é lindo. Não quero morrer sem voltar àquela terra' – diz com uma pontinha de emoção. Regressou à vila natal, Alter do Chão, no Alto Alentejo, e empregou-se com a mulher na Câmara Municipal. O casal tem ainda uma filha, nascida em Portugal. Hoje, Francisco Bogalho está reformado da função pública. A mulher ainda trabalha na autarquia.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Comentário

Fernando disse:
Na outra margem ficava a Mucanha onde estavam os "castigados" Caparica e Matosinhos....vinham passar o fim de semana ao Mágoé...e ver se a Antónia "podia".....
12 de Agosto de 2009 12:08

Gostaria que este Fernando se identifica-se mais, tambem não tenho indicação dos nomes do "Caparica e do Matosinhos" .
Na minha listagem só tenho um Fernando 87/68 Mafra.