domingo, 24 de outubro de 2010

Foto da mesa no regresso

As memorias de um eis combatente No 12

Novos ambientes, novas paragens, agora do outro lado e para o interior.

Distrito de Téte. Quente. Província bem quente em temperatura.
De avião até Téte.
De coluna de Téte até ao Magué Novo, ficando ali por dois dias.
Na segunda noite, dois ou três de nós, mais um ou dois do Exército e num LandRover resolvemos ir beber uns copos a Mocumbura na fronteira da Rhodesia que ficava a cerca de cinquenta quilometros.
Para nossa sorte, na volta e ao entrar no aquartelamento, a gasolina acabou, teria sido bem complicado se tivesse acabado longe.
Nova deslocação, mais uns bons qilometros, por uma picada em muito mau estado, até ao Magué Velho, aqui junto ao rio Zambeze.
Novo acampamento a ser construido.
Patrulhamentos pelo rio, em Zebro III. Patrulhas de reconhecimento pela zona, nada de importante a não ser o rebentamento de canoas á granada.
Um dia um camião mercedez com saida do Magué Velho com destino a Téte.
O António Rafael Garcez de Sena Freitas Mar FZE 728/65 (mais conhecido pelo Arraza) era o condutor. Mais alguns Fuzileiros em cima na carroçaria para apanhar ar fresco.
Na picada e já bastante longe do Magué Novo, há uma embuscada.
Um elemento dos terroristas salta para a picada com um lança roquetes, á o disparo e o roquete atinge a roda detraz do camião.
Da direita e na zona de morte, (uso este termo por ser a área em que a viatura está no centro da embuscada) há uma serie de disparos, havendo a imediata resposta do pessoal do camião. O parabrisas tambem é atingido ficando todo estilhaçado.
Sem ver nada para a frente. Com os punhos o Arraza empurra-o para a frente.
Com uma roda detraz bloqueada consegue tirar o camião daquela zona.
Creio terem sido seis feridos ligeiros que tivemos nesta emboscada.
Para o Magué Velho e em Zebro III são feitos os abastecimentos.
Carregados da Chicoa e pelo rio acima com passagem pelos rápidos o que não era muito facíl pela velocidade da água.
Com a construção de Cabora Bassa toda esta área desapareçeu.
Geralmente um Fuzileiro sózinho por bote para fazer o transporte do carregamento de mantimentos que eram levados para o nosso acampamento, não mais de dois botes de cada vez.
Tambem fiz algumas destas viagens sózinho.
Algumas noites de patrulha pelo rio e junto a margem, com um holofoto para ver o que se passava na margem, algumas vezes era imprecionante ver tantos reflexos de olhos de jacarez, parecia uma pequena cidade.
Rio Zambeze tambem muito povoado por hipopotamos.
Por outras vezes e no mato, tentando caçar para comer algo diferente.
Lá se passaram alguns meses.
Do Magué Velho, para mais perto de Téte, para o Tchirose.
Bem lá em cima no alto do morro a uns bons cinquenta metros se não mais acima do nivel do rio.
A divisão do pessoal entre o Tchirose e Téte. Estivemos mais ou menos por um mês, ou pouco mais.
E aqui meus amigos, com mais alguns dias em Téte e depois de vinte e sete mêses no norte de Moçambique, terminou a sua comissão o Destecamento de Fuzileiros Especiais No 9 entre 1969 e 1971.
Não me lembro mas creio termos voado até á Beira para o embarque no navio da Marinha Mercante, o Princepe Perfeito.
Para mim só por um dia e uma noite e por preferência para ficar em Moçambique.
Finalmente e para mim o desembarque em Lourenço Marques.
Com a despedida de todos os camaradas e amigos que tinhamos combatido juntos pelo norte.
Ficando agregado ao Comando Naval por mais três meses por falta do papel de passagem á disponibelidade, que devia ter sido deixado pelo destacamento.
Aqui passo á reserva da Marinha no dia 2/11/1971.

domingo, 17 de outubro de 2010

As memorias de um eis combatente No 11

Do Niassa até Porto Amélia, Cabo Delgado.

Um aquartelamento bom, com umas instalações mais ou menos, um ambiente da vida civil, entrada e saida sem farda, para o caso em Porto Amélia um pré fabricado em muito bom estado. Não tivemos muito tempo para nos gozar dele, em três meses que se esteve em Cabo Delgado.
Fizemos uma operação á costa, na área de Mocímbua da Praia, terreno muito pantanoso e bem difícil.
Desembarcados e reembarcados por uma Fragata.
De volta á base, mais uns dias de praia, para mim, numa das melhores praias de Moçambique, praia parece que nunca mais acaba.
Dias depois, numa manhã.
Nova convocatória alguns camiões Mercedes na parada, destribuição do pessoal pelos camiões e lá vamos nós até Mueda.
Uma estrada bem complicada para colunas automoveis, minas, embuscadas, uma zona muito flagelada pela frelimo, todo aquele que passasse para norte do crusamento da viúva. Digamos na zona mais próxima a Mueda onde se situava a tão celebre curva da morte, onde tantos soldados do exercito perderam a vida.
Não sei se por sorte, vontade própria, vou novamente trazer de volta a “tropa macaca” como eramos conhecidos pela frelimo. Passamos toda esta estrada sem um tiro ou um rebentamento.
Chegados a Mueda, á que levanter um acampamento com tendas de campanha.
Algum descanso.
Um ou dois dias depois, uma operação a norte de Mueda, desta vez fiquei em casa. (No acampamento).
Sei que ouve encontro com a frelimo, que ouve tiros de parte a parte.
O guia que tinha pertêncido aos Paraquedistas e digo pertencido porque ouve um pequeno precalso para ele.
Um dos membros do destacamento que se apercebeu e no encontro com a Frelimo, o guia tentou fugir. O Fuzileiro/Eletrecista (Manuel Antonio Galito de Almeida, Mar Fze 266/68) não pensou duas vezes e com uma rajada de G3 o guia foi ao chão, não morreu desta, para sorte dele.
Teve uma operação cirurgica de emergencia em Mueda para reparar os intestinos que tinham ficado muito danificados.
Duas semanas neste acampamento. De novo de volta, nova coluna de volta a Porto Amélia, por poucos dias.
Nova coluna de mercedes até ao lago N’gurí.
Passando novamente pelo cruzamento da viúva e em vêz de seguir em frente a caminho de Mueda, viramos á direita para Montepuez,( base dos Comandos ) mas só de passagem.
Com homens á frente a picar a picada para o caso de poder haver minas.
Foi uma progressão de caracol.
Primeiro a segurança do pessoal e viaturas.
Depois de Montepuez, passagem por e sobre uma ponte que só tinha passadeiras para as rodas dos camiões, mas lá fômos até ao lago que já não estava muito longe.
Formar acampamento, montagem de barracas, organizar e começar o reconhecimento.
Canoas apreendidas e empilhadas junto ao nosso acampamento.
No dia a seguir a termos tomado a base do lago N’gurí, o destacamento saiu para dar uma volta e ver se encontrava mais frelimos. Na base ficaram 3 ou 4 Fuzos e o pelotão do exército. Uma hora + - depois de terem saido começámos a ser flagelados por morteiros e algumas rajadas. Os Fuzos que tinham ficado estavam todos com desinteria e como estávamos sempre com necessidade de aliviar a tripa fomos para o buraco onde estava o morteiro porque ficava mais perto do mato que circundava a base. Enquanto a malta do exército andava sem saber o que fazer reagimos à morteirada aos disparos deles e passados uns minutos (gastámos uma caixa de granadas) deixaram de se ouvir os tiros deles. Quando o destacamento voltou eu já tinha comunicado com o Carlos a explicar o sucedido e o DFE circundou a base para os apanhar pelas costas mas a unica coisa que encontrou foram vestigios de sangue no local e continuaram a nomadização.
Incurções ao mato de dois e três dias, mais algumas escaramuças, nada de maior.
Em conjunto com o Exercito nas saídas para a estrada.
Numa destas saídas há uma Berliett que na picada rebenta uma mina e um Furriel do Exercito ferido, ouve também um ou dois Fuzileiros com umas escoriações, mas nada de grave.
Estivemos nesta área mais ou menos um mês.
Depois disto o regreço a Porto Amélia, novamente por pouco tempo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

As memorias de um eis combatente No 10

Mais algumas operaões, mais umas escaramuças, tiros de cá, tiros de lá.

Não tão bém como a guerra do nosso saudoso Raul Solnado.
Aqui a guerra era mesmo a valer.
Neste episódio vou tentar relatar mais em detalhe o que já foi escrito por camaradas meus. Que vivemos em conjunto esta mesma guerra, pertencentes á mesma unidade.
Para esta operação fomos convocados 60 homens, incluindo, 2 oficiais, 3 sargentos e 55 praças.
Começando pelo comandante, que numa operação desta envergadura nunca ficava em casa.
Homem destemido, qual a confiança que ele tinha no seu homens, sempre na frente. A única arma que ele geralmente carregava em operações era uma pistola Walter.
Agora o começo da narrativa da tão celebre operação "Montelima". 26/2/70
O ataque á base de Vila Cabral. A base principal. A base de comando da Frelimo na província do Niassa.
Caía a tarde e já todos sabiamos quem ia sair nessa noite.
Detribuição de rações de combate, tudo pronto para o embarque nas lanchas L.Fs.
Saimos já de noite, rumo ao sul, um pouco mais de meio caminho entre o Cobué e Metangula.
Desembarque em Zebro III, dois, três ou quatro, não me lembro.
De noite leva sempre mais tempo este genero de desembarque. Por motivo de segurança as lanchas ficavam longe da margem.
Desta vez saíamos com um novo guia.
Este tinha-se entregue ao Exercito dias antes, no norte da província junto a fronteira da Tanzania.
Todos em terra depois do desembarque. Vamos andar, temos muitos quilometros pela frente.
Andamos toda essa noite, todo o dia seguinte, parando só por uns minutos para comer.
Ao cair da segunda noite parou-se para descançar um pouco, não muito para não arrefecer.
Nova caminhada.
Cerca da 01:30 da manhã desce-se uma encosta, entramos dentro de um rio, com água quase pela cintura.
Passa palavra, fazer o menos barulho possível.
Cerca de meia hora a caminhar na água até que veio ordem para parar.
Um pouco mais á frente havia uma machamba (uma horta). Aqui eram cultivados os alimentos para os Frelimos na área.
Os cultivadores e os guardas deles que aqui se encontravam, foram todos presos, sem uma palavra ou algum som.
Até aqui tudo bem.
Para sair do rio era utilizada uma arvore velha e seca que estava encostada na vertente do rio como que servindo de escada.
Seguindo um trilho que era usado por eles, através dos montes, lá fomos progredindo pelo mato.
Mais á frente havendo conhecimento pelo guia de que havia um sentinela, desviamo-nos do trilho e aqui perdemos muito tempo para contornar este obstáculo, tempo esse que nos fez muita falta mais tarde, mas lá fomos andando.
Mais adiante algum tempo depois começavam a aparecer os primeiros ráios da aurora.
“O amanhecer”.
Já próximo do alvo é formado um pequeno acampamento com o pessoal capturado, com alguns nossos de guarda.
Teria tudo sido tão diferente e tão mais facíl se chegaramos aqui meia hora mais cedo, esse o tempo que perdemos a contornar o sentinela.
Palavra para avançar pela direita do trilho que tinhamos seguido. No lado esquerdo estava armadilhado.
Não há tempo para lamentações, neste ponto impossível voltar para traz. Há que avançar.
Eram 05:35 ouviram-se vozes no mato, já se viam algumas palhotas, cheirava a fumo. Quero dizer, os cozinheiros estavam já a pé para fazer a comida para os Frelimos.
Com o pessoal já todo alinhado ao longo do arvoredo a alguns metros das palhotas, muita tenção, ouvesse uma primeira rajada um som bem conhecido por nós, por ser da nossa MG42 uma metrelhdora ligeira.
Logo a seguir tiros de ambos os lados, mas que coisa mais infernal.
Há um Frelimo por detraz de uma arvore que faz uma rajada de AK47. Dois Fuzileiros que caem, um morto, meu saudoso e pessoal amigo (José Serpa da Rosa Mar FZE 1356/67) que tinha vindo até nós oriundo dos Açores, e um frido. Neste momento não tenho a certeza, não vou mencionar nomes, espero que me ajudem.
Por informações chegadas até nós depois desta operação, estavamos muito aquém de comparar o nosso numero com o numero do inimigo, eramos, bem menos.
Por aquilo que nos foi comunicado por frelimos que se entregaram ao Exercito depois desta operação, tinham morrido 58 neste ataque.
Não nos foi dito qual o numero de feridos que eles tiveram. Foi capturado enorme quantidade de documentos, fardamento e equipamento.
Foi abatido o secretario da base central Dustão Paulo Candeia, ferido o chefe de material, Feridos não identeficados, capturado Henrique Samuel Catamaca perito minas e armadilhas.
Há que destruir o mais possível no menor tempo e sair daquí muito depressinha. Tinhamos que carregar com o nosso camarada morto, o ferido com uma bala alojada nas costas lá se foi aguentando que nem um grande HERÓI.
Num caso destes é bem mais difícil caminhar, revezando os carregadores da maca de dez em dez ou de quinze em quinze minutos e calhava a todos, por ser muito dificil atravez do mato.
Mais ou menos uma hora depois faz-se uma paragem para descansar e pedir a evaquação. O Rádio Telegrafista Mar C FZE Carlos Guilherme dos Santos, entra em contacto com a base. E são despachados um helicoptro e um avião de proteção T6.
Pelas 08:00 começamos a ouvir o avião bem longe ainda. O Telegrafista tenta entrar em contacto uma, duas, três vezes mas sem sucesso. Cada vez que dava as coordenadas aos voadores perecia mais se afastarem. O comandante chega á conclusão de haver outro rádio na área a chamar por eles. Muito provavelmente os frelimos.
Está tudo calmo.
Para tentar mais rede o Telegrafista sobe a uma pequena árvore e tenta estender uma antenna para melhor captação de rádio, há uma rajada de AK47, ele salta para o chão com folhas da ávore a cair-lhe em cima.
Voltamos a andar sempre, com tiros disparados á nossa volta e não muito longe, lá vamos tambem dandos uns tiros de vez enquanto para mostrar resistência da nossa parte.
Sempre a andar.
Cerca das 16:00 finalmente os voadores vêem na nossa direcção, aqui tudo se modifica para nosso bem, neste caso para bem melhor.
Feita a evacuação no planalto em que nos encontravamos, não sem de um arvoredo próximo ainda haver uma rajada ao heli.
Soubemos que na chegada a Metangula o ferido, pelo seu pé saiu do heli, entra num jeep que o leva até a enfermaria da Marinha, neste momento e quando se dirige para entrar na enfermaria pelo seu pé, aqui sim acabaram-se-lhe as forças e vai para o chão, depois daqui nada mais soubemos dele, não voltou para nós, soubemos ter sido evacuado para Portugal.
Nós agora estamos com mais mobilidade, mais poder de acção e com mais liberdade e rapidez.
Saindo do planalto o mais rápido possível pela encosta descendo para a planice, com muitos tiros nas nossas costas, não sem uma vez por outra responder-mos aos disparos, há que andar o máximo possível.
Já bem de noite finalmente o stop, já sem sentir não só as pernas mas tambem todo o resto do corpo.
Algumas horas de son depois, ao amanhecer, lá vamos nós com destino a Nova Coimbra,
não sem passar pelo Lunho um acampameento de que todos devem ter ouvido falar e que ficou famoso, uma eis base do Exercito abandonada por muito ter sido flagelada pela Frelimo, não ouve outra alternativa senão abandona-la.
Mais uns bons quilometros até á entrada em Nova Coimbra muito tristes. Com abraços dos residentes do Exercito pelo feito de que nós tinhamos sido protagonistas.
Com o armamento capturado, 2 AK47, 1 espingarda simonov, 1 carabina steyer. Não só na machamba mas tambem na base e todos aquqeles elementos que não pertenciam aos Fuzileiros e que nos acompanhavam, 3 homens, 8 mulheres e 6 criancas.
Aqui posso salientar que toda esta operação foi começada, efectuada e concluida só pelo Destacamento de Fuzileiros Especiais No 9, sem qualquer apoio de outras forças, quer do Exercito ou da força Aerea.
De Metangula fomos até ao Cobué para um bom descanso, poderemos dizer que esta operação foi um êxito, mas teria sido um êsito muito maior ainda se todo o pessoal tivesse regressado.
Foi uma das mais duras de todas as operações por nós efectuadas nos vinte e sete meses que estivemos no norte de Moçambique. Daqui com um bom descanso, creio de duas semanas, e prontos para novas aventuras.