sábado, 31 de julho de 2010

Partilha de história de guerra

Aqui vai um link do Youtube enviado por um camarada nosso do exército que publicou um livro sobre Moçambique.
"Caro ex-Combatente Luís Silva! Venho convidar-te a ver uma história de guerra vivida por mim há mais de 40 anos, em Moçambique e que ainda está à espera de conhecer um epílogo. Se gostares, conforme espero, nesse caso peço-te por favor que divulgues o episódio pelos teus contactos. Uma das razões deste meu pedido facilmente a descortinarás durante o visionamento do vídeo que anexo. Um abraço de camaradagem Jaime Froufe Andrade
 http://www.youtube.com/watch?v=KrR0G262dqU "

quinta-feira, 22 de julho de 2010

João Mateus " Memórias de um Ex Combatente" 2

E agora que tudo comeca para ele e tantos outros filhos da escola
As memorias de um eis combatente
No dia 1 de Julho de 1967 (e agora aqui ja entro eu) onde Tive que apresentar-me novamente no corpo de marinheiros da armada e onde recebi a primeira carecada, tambem onde recebi um numero 1161/67, numero esse que me acompanhou por bastante tempo (quatro anos, quatro meses e um dia), todo o fardamento e um saco bastante grande onde tudo cabia ( tal qual que nem o saco azul so que o saco azul conseguia ser bem maior e sem fundo, e quem por la passou sabe exatamente o que estou falando). Deviamos ser mais ou menos ao todo 75 novos recrutas.

Depois de todos os proformas e de algumas gargalhadas dos mais velhos que estavam aquartelados no Alfeite, fomos embarcados em autocarros do Alfeite ate a Base Naval onde nos esperava uma vedeta da marinha (um barco tipo cacilheiro mais pequeno). Navegaamos ate ao cais da Marinha junto ao Terreiro do Passo.

Aqui sem os sacos porque como eram bastante pesados, foram transportados de camiao diretamente para o destino, para ser mais facil para os novos mancebos.

Do Terreiro do Passo tivemos que fazer uma formatura saloia pois era a primeira vez que nos viamos em tal, la fomos andando ate a estacao da C.P. do Rossio.

Metidos numa composicao ligeira de comboio, la fomos ate Vila Franca de Xira onde chegamos ja de noite. Escola de Alunos Marinheiros.

Saindo no apiadeiro da escola e entrando pela parte da Escola de Mecanicos( se sabem do que estou falando). Mais uma formatura para o pessoal nao ir a granel (tambem devem conhecer muito bem esta palavra). Chegando a parte da Escola Alunos a primeira coisa a fazer era procurar o saco no meio de tantos outros espalhados na parada. Depois a caserna, detribuicao de camas por numeros, 12 camas em cada cubiculo, cama com resto chao e primeiro andar.

No primeiro cubicolo ja havia um residente o 1000/67 o qual perdeu a recruta anterior por ter partido uma perna.

Escola Alunos nao tem muito de que falar alem de preparacao fisica marchas pequenas, saida ate a carreira de tiro da Carregueira que fica junto ao Cacem, onde fomos por um dia para nos comecarmos a abituar a G3.

Escola Alunos 2 meses e meio que passaram muito rapido, juramento de bandeira na Escola de Mecanicos no dia 18 de Setembro de 1967 e daqui para casa de ferias.

Nova etapa Escola de Mecanicos curso que comecou a 2 de Outubro de 1967.

Aqui ja um pouco mais complicado pois em tres meses tinhamos que aprender a licao (a minha especialidade de Fogueiro Mecanico) e passar no exame final ou entao no final do ITE iamos para casa, seria como se por la nao tivecemos passado.

Se bem me lembro toda a gente passou.

Aqui as camaratas eram um pouco diferentes, todos os dias a cama de lona era enrolada em tipo de chourico e dependurada na cama que era elevada em molas e dobradicas e que ficava ao alto encostada a parede de pes para cima.

Na Escola de Mecanicos em Vila Franca de Xira era mais sala de aulas por isso vinha o nome de escola onde regrecamos a 29 de Setembro 1967 e onde o curso terminoua 22 de Dezembro de 1967 .

Uma coisa que tenho que realcar era o refeitorio era como fossemos ao restaurante a todas as refeicoes, para quem nao soubesse e isto em todas unidades da Marinha, Exercito e Forca Aerea era administrado juntamente com a bebida uma porcao de algo para deminuir a potencia sexual isto para nao haver equivocos entre o pessoal.

O que e bom acaba de pressa, quando acabou o ITE la tivemos que ir para novas paragens Corpo de Marinheiros do Alfeite.

Aqui e tal qual como todas as outras unidades nao se fazia nada sem formaturas. Aqui tudo era totalmente diferente as casernas nao eram mas, mas o refeitorio era para esquecer. Onde comi pior em todo o meu tempo de marinha.

Estivemos nesta unidade por cerca de um mes o que foi para esquecer e nao lembrar mais.

Daqui destacados pa a Base Naval da Marinha.

NRP Patrulha Sta Luzia.

Aqui foi como se tivessemos que passar o tempo com pouco para fazer.

Nesta unidade ainda aprendemos a ser Bombeiros na Escola de Limitacao de Avarias junto a Escola de Artilheiros.

No principio as refeicoes eram no refeitorio da Base Naval por nao haver condicoes a bordo e o navio estar em reconstrucao, mas depois comessou-se a come a bordo. Se eu mencionei anteriormente que em Vila Franca se comia bem, aqui nem vos digo.Era como se estivessemos mesmo no hotel. Comer do melhor, bolos, cafe espresso com brandy ou bagaco a todas as refeicoes tabaco e whisky.

Por esta ocasiao e nao parecendo ( por algumas desavencas com o segundo Sagento Artifice de maquinas) satisfeito juntamente com um camarada da mesma especialidade,resolvemos ir mais longe.

E como uma resolucao unica, pedindo a um camarada de abastecimentos (escritorario a bordo) para fazer uma declaracao para ambos para o Menisterio da Marinha que queriamos seguir para os Fuzileiros Especiais.

Nao ouvimos nada durante alguns meses.

Ate que certo dia estando a bordo chegou uma ordem de destacamento nao para a

Escola de Fuzileiros mas para o Hospital de Marinha em Lisboa. (Neste momento pensei que tudo estava esquecido) para me apresentar nesta unidade a 9 de Outubro de 1968, seccao de maquinas e caldeiras de aquecimento do Hospital, aqui estava como peixe na agua.

Nem uma semana depois nova ordem de destacamento em diligencia, Escola de Fuzileiros, quando informado pelo meu chefe um 2do Tenente de maquinas (fiquei como muito bem se costuma dizer cairam-me os tomates ao chao) porque neste momento a estava, falando e pedindo ao meu chefe, ele bem tentou mas nada pode ser feito pois a decisao tinha sido minha.

Dia 17 de Outubro de 1968 tinha que me apresentar na Escola de Fuzileiros em Vale de Zebro.

sábado, 3 de julho de 2010

Operações no Niassa

Esta operação embora eu não tenha a certeza do nome foi uma das em que eu participei logo que cheguei . Este foi o exemplo típico do tipo de operações por nós efectuadas no Niassa. Tivemos algumas mais complicadas como a Operação Gavião em que faleceu o n/ camarada João Serpa da Rosa mas nessa não participei.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Uma noite em Moçambique

Ao longe o clarão sol a nascer no horizonte cega-nos. Cançados depois de toda uma noite caminhando, tropeçando, rasgando a carne nos ramos espinhosos, praguejando em silêncio, sentimo-nos agora sem forças para prosseguir.

O Comandante, finalmente, ordenou a tão desejada paragem e esses mesmos corpos derreados largaram-se ao abandono no chão duro desejando apenas não sentir. Os sentidos sempre alerta vão-se apercebendo dos ruídos da mata. Um ligeiro cheiro a fumo chega até nós. Estamos perto.
Quaise imediatamente e por sinais recebemos ordem para proceguir. Com muito esforço retomamos a marcha. A paragem foi de cinco minutos e serviu apenas para beber um gole de água e respirar fundo. O peso da mochila vinca-me os ombros e as pernas já não as sinto. Caminhamos à 16 horas no mato e estamos no fim das nossas reservas.

Começamos a andar ainda com mais cuidado, estamos em aproximação e a partir de agora qualquer erro pode ser fatal. Temos o cuidado de seguir as pegados do fuzo à nossa frente. De repente sinal de alto todos nos abaixamos com os sentidos alerta. Esperamos tensos, ansiosos e nervosos. Nova ordem para proceguir. O sol a subir no horizonte começa a aquecer o nosso corpo. Caminhamos na orla da mata paralelamente à picada. Apesar de ser mais fácil para caminhar ou está minada ou tem sentinelas. Novo alto. São cinco da manhã e a vida na povoação começa a despertar. Ouvem-se os galos e de quando em vez o grunhido de um porco.

Recebemos ordem para emboscar. Já somos veteranos cada um sabe o que tem de fazer. Os chefes de equipe reunem o seu pessoal e procuram o melhor local. Eu como telegrafista procuro um local seguro com o sargento enfermeiro e o meu guarda costas encostamo-nos a uma árvore e aguarda-mos. Ligo o Racal só com antena vertical para verificar se está a funcionar. Estas baterias não são de confiança e às vezes descarregam-se e eu só levo uma reserva. Pesam 3 kg e são muito incómodas de transportar.

Finalmente a ordem para atacar. Os Fuzos levantam-se aos gritos e desatam em louca correria na direção da povoação. Tudo acontece num momento. Atravessamos o espaço desprovido de árvores, atravessamo-lo e entramos na povoação. Está vazia, foi abandonada durante a noite, deixando apenas os animais e o lume feito. Devem-nos ter detectado durante a caminhada e resolveram abandonar o povoado levando o povo para outro local.

Revistamos as palhotas com cuidado por causa das armadilhas. Nada de armas e a comida era pouca. Incendiamos o povoado e saímos rápidamente da zona. Era custume lançarem granadas de morteiro para a propria povoação enquanto nós lá estáva-mos.

Afastámo-nos rápidamente alguns kilómetros e finalmente pudémos descançar. Agora teríamos que fazer o caminho de volta à base.


Luis Filipe “Memórias de um Fuzileiro”