sexta-feira, 2 de julho de 2010

Uma noite em Moçambique

Ao longe o clarão sol a nascer no horizonte cega-nos. Cançados depois de toda uma noite caminhando, tropeçando, rasgando a carne nos ramos espinhosos, praguejando em silêncio, sentimo-nos agora sem forças para prosseguir.

O Comandante, finalmente, ordenou a tão desejada paragem e esses mesmos corpos derreados largaram-se ao abandono no chão duro desejando apenas não sentir. Os sentidos sempre alerta vão-se apercebendo dos ruídos da mata. Um ligeiro cheiro a fumo chega até nós. Estamos perto.
Quaise imediatamente e por sinais recebemos ordem para proceguir. Com muito esforço retomamos a marcha. A paragem foi de cinco minutos e serviu apenas para beber um gole de água e respirar fundo. O peso da mochila vinca-me os ombros e as pernas já não as sinto. Caminhamos à 16 horas no mato e estamos no fim das nossas reservas.

Começamos a andar ainda com mais cuidado, estamos em aproximação e a partir de agora qualquer erro pode ser fatal. Temos o cuidado de seguir as pegados do fuzo à nossa frente. De repente sinal de alto todos nos abaixamos com os sentidos alerta. Esperamos tensos, ansiosos e nervosos. Nova ordem para proceguir. O sol a subir no horizonte começa a aquecer o nosso corpo. Caminhamos na orla da mata paralelamente à picada. Apesar de ser mais fácil para caminhar ou está minada ou tem sentinelas. Novo alto. São cinco da manhã e a vida na povoação começa a despertar. Ouvem-se os galos e de quando em vez o grunhido de um porco.

Recebemos ordem para emboscar. Já somos veteranos cada um sabe o que tem de fazer. Os chefes de equipe reunem o seu pessoal e procuram o melhor local. Eu como telegrafista procuro um local seguro com o sargento enfermeiro e o meu guarda costas encostamo-nos a uma árvore e aguarda-mos. Ligo o Racal só com antena vertical para verificar se está a funcionar. Estas baterias não são de confiança e às vezes descarregam-se e eu só levo uma reserva. Pesam 3 kg e são muito incómodas de transportar.

Finalmente a ordem para atacar. Os Fuzos levantam-se aos gritos e desatam em louca correria na direção da povoação. Tudo acontece num momento. Atravessamos o espaço desprovido de árvores, atravessamo-lo e entramos na povoação. Está vazia, foi abandonada durante a noite, deixando apenas os animais e o lume feito. Devem-nos ter detectado durante a caminhada e resolveram abandonar o povoado levando o povo para outro local.

Revistamos as palhotas com cuidado por causa das armadilhas. Nada de armas e a comida era pouca. Incendiamos o povoado e saímos rápidamente da zona. Era custume lançarem granadas de morteiro para a propria povoação enquanto nós lá estáva-mos.

Afastámo-nos rápidamente alguns kilómetros e finalmente pudémos descançar. Agora teríamos que fazer o caminho de volta à base.


Luis Filipe “Memórias de um Fuzileiro”

2 comentários:

  1. Olá Luís;
    Quer dizer que nesta aventura estava também o filho da escola João Mateus, Verdade?
    Ainda bem que nada aconteceu, permitindo assim que regressassem todos sãos e escorreitos… Caso tivessem combatido na altura, nos dias de hoje passaria a não ter valor, uma vez que se lutou tanto só para aquecer, quando os políticos da maré nada fizeram: a não ser entregar tudo de mão beijada a russos e cubanos sem protegerem os brancos e seus haveres; tudo por interesses pessoais, claro…
    Um abraço!

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  2. Fiquei feliz pela descrição da operação e não ter havido vitímas nem de um lado nem do outro, pois se alguma coisa lã houvesse seria gente indefesa da povoação, que na sua maioria nada percebiam daquilo que se desenrolava no teatro das operação e muito menos o que pretendiam de um ou outro lado, a não ser as informações e promessas que lhe eram feitas.
    A minha dúvida é se esta operação foi integrada na operação Nó-Górdio e se a pretensão era a Base de Nampula?
    Não me vou repetir ao dizer que o foi o Destaca,ento que mais ligação tive, vós eras uma equipa completissima. Oficiais, Sargentos e Praças. É uma honra para mim poder registar este apontamento.
    Pena que a letra esteja muito minuscúla e certos Camaradas poderão não as conseguiu lêr.
    Deveis ter muitos mais relatos destes e porque não os divulgar.
    É bom que se saiba que houve uma guerra de guerrilha, onde ocorreram casos de consequências gravissimas.
    Um Abraço

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